Médica cubana em Montes Claros teme o desemprego e fala sobre acolhimento: ‘Nunca fui rejeitada’

Médicos do programa atendiam em postos de saúde da cidade — Foto: Fábio Marçal/ Prefeitura de Montes Claros/ Divulgação

Médicos do programa atendiam em postos de saúde da cidade — Foto: Fábio Marçal/ Prefeitura de Montes Claros/ Divulgação

Fonte: G1 Grande Minas

Há mais de quatro anos em Montes Claros, uma médica cubana de 34 anos conta com alegria as experiências profissionais e a história de vida que fez no Brasil, onde se casou e teve um filho. Apesar da satisfação de morar no país, ela deve deixar o Norte de Minas com o fim do acordo de Cuba com o programa Mais Médicos, ainda que temporariamente. A profissional que prefere não se identificar por medo de represálias é uma das cinco que atendem em Montes Claros, a maior cidade da região, e não pretende voltar a morar por definitivo na terra onde nasceu.

A médica trabalha atualmente em uma unidade de saúde básica no Bairro Nossa Senhora das Graças. Ela sabe que, até que novas medidas sejam tomadas, os serviços que presta devem ser encerrados até a data prevista de 12 de dezembro. Um acordo feito entre Brasil, Cuba e a Organização Mundial da Saúde definiu que cerca de 8.300 médicos cubanos do programa Mais Médicos deixem o país gradualmente, em voos programados para sair de cidades polos.

O sentimento que ela diz ter é de medo, pela família do Brasil e pela que ficou no país de origem. Com 30 anos, ainda solteira, a médica foi contatada pelo governo cubano. Em 2014, a proposta de viajar em uma missão em prol da saúde dos mais necessitados brasileiros foi convidativa.

“Eu já tinha trabalhado na Venezuela. Meus pais sabiam que eu tinha o sonho de conhecer outras culturas, de viajar, mudar de vida. Quando me perguntaram se eu queria vir ao Brasil, eu poderia ter dito ‘sim’ ou ‘não’, e resolvi aceitar. Gostava do Brasil pelo que eu tinha ouvido falar”, relembra.

Quando chegou às terras brasileiras, a profissional passou um mês em Brasília-DF, onde foi submetida a testes de idioma e conhecimentos na área médica. Aprovada, foi designada a trabalhar em Montes Claros, de onde nunca se mudou. O espírito livre foi transformado quando encontrou um companheiro do Norte de Minas e teve um filho com ele, hoje com dois anos. Agora, grávida de dois meses, a médica não pretende se mudar de volta para Cuba.

“Quando vim para cá era solteira e não tinha filhos, qualquer lugar estaria bom. Só que cheguei a Montes Claros e me apaixonei. Encontrei meu atual esposo e eu e outros colegas percebemos que o brasileiro tem um jeitinho do cubano. Fomos muito bem acolhidos. Passou um tempo, me casei, tenho um filho de dois anos e estou grávida. Agora não dá para deixar tudo para trás”, diz.

Visões sobre Cuba

A família da médica permanece em Cuba. Ela conta que tem livre acesso ao país, para ir e voltar, caso queira. Quando questionada sobre o interesse de retornar definitivamente, ela responde que “só de férias”. O G1 perguntou sobre as lembranças que ela traz do tempo em que vivia no país caribenho, tanto pessoais quanto profissionais. A mulher relata que a vida era tranquila e que se lembra de ter se dedicado muito aos estudos.

“Eu mesma fiquei mais tempo estudando para me formar. A gente fazia muitos plantões, eu tinha minha família lá, sabe? Todos já sabiam que eu queria conhecer outro país, então o processo foi natural”, relata.

O que mais a motivou a aceitar o então intercâmbio com o Brasil, segundo a médica, foi a curiosidade de conhecer novas doenças. “Ninguém nunca me obrigou. Eu que queria ver de perto outras culturas, conhecer o mundo. Lá em Cuba não tem chagas [doença provocada pelo barbeiro], por exemplo. Não tem essas doenças que acometem tanto as pessoas mais humildes”, diz.

A profissional se lembra do sistema de saúde do país de origem com clareza e se refere a ele como “organizado”. Conta sobre uma rede de assistência médica estruturada, com a qual contribuiu por muitos anos. Ela afirma ter vários postos de saúde disponíveis para toda a população, com especialistas em várias áreas médicas.

“Por exemplo, a cada posto de saúde você encontra pediatra, obstetra, ginecologista. É raro precisar transferir as pessoas para hospitais maiores. Aqui o problema é que a pessoa sai do posto de saúde, vai para a urgência e não resolve nada. Lá tem hospitais específicos para cada área também, as gestantes vão para um local específico, quem tem problema de coração para outro local, e assim por diante”, lembra.

A principal diferença que ela diz ter sentido entre os dois países é no que se refere à lida com as pessoas e a percepção de solidariedade. “Encarei vir para o Brasil como se fosse uma missão. Fui criada em ambientes de solidariedade, para nós isso é comum. Faz parte da nossa cultura. Não é nada do que falam por aí que é obrigado a ir para outro país, porque não é. Acho que os cubanos são mais solidários. Aqui, conhecer o vizinho é raridade. A gente estranha, sente saudades da terra onde nasceu, apesar de que em questões culturais somos parecidos”, afirma.

Vida no Brasil

Depois de ter se casado, formado uma família e trabalhado há algum tempo com os pacientes brasileiros, a médica garante que se sente bem servindo à saúde em Montes Claros e não tinha pretensões de mudar de ofício. Segundo ela, nunca houve preconceito por parte dos atendidos no sistema básico de saúde. Com o anúncio do novo edital do Mais Médicos, ela diz ter medo.

“É uma situação muito difícil. Graças a Deus ainda temos oportunidade de irmos e voltarmos quando quisermos, mas não quero ficar desempregada. A gente vai tentar fazer o Revalida. É a única opção que vamos ter. Com os pacientes nunca tive problema, amo a população daqui e nunca fui rejeitada por ninguém que eu tenha atendido”, diz.

A médica relata sentir desconforto com as falas dos políticos que menosprezam o serviço cubano prestado no Brasil.

“É muito desconfortável. Parece que estão humilhando a gente. Nós somos médicos. Não tenho medo. Consigo provar que sou médica. O que dói é falarem assim depois de tanto tempo de trabalho, da dedicação. Eu poderia ter matado gente se não fosse médica de verdade, e, no entanto, não fiz isso. Somos profissionais e não é legal que nos questionem dessa forma”, comenta.

Apesar da proposta de poder ganhar mais, caso seja aprovada no novo programa Mais Médicos, a profissional afirma que a proposta ficou pior diante do risco do desemprego, mesmo tendo uma família para sustentar.

“Agora está é pior porque podemos ficar desempregados, né? A gente queria sim ganhar mais, mas ninguém veio para cá enganado. Vim sabendo o valor que iria receber, poderia ter assinado ou não. Fizemos um contrato sabendo do que íamos ganhar. Obviamente queremos ganhar mais, mas agora está pior. Só gostaríamos que reconsiderassem a vaga até fazermos o Revalida, porque ainda falta tempo e até lá vamos estar de mãos atadas”, lamenta.

Mais Médicos no Norte de Minas

G1 Grande Minas teve acesso a um relatório do Ministério da Saúde que discrimina quantos profissionais do programa Mais Médicos prestam serviços em cada cidade integrante. Na área de cobertura do portal, que compreende as regiões do Norte de Minas, Centro e Vales do Jequitinhonha e Mucuri, 108 médicos devem ser desligados nos próximos dias.

Em Montes Claros, o programa começou com 13 contratados, e até esta terça (20) restavam cinco médicos. A secretária de saúde do município, Dulce Pimenta, afirma que ainda não recebeu comunicação oficial do Ministério da Saúde. Ela comenta ter ciência de que o Governo Federal divulgou o edital, mas que ainda não há informações sobre os trâmites a serem adotados com os médicos estrangeiros.

Em relação à ausência dos cinco médicos que vão ser obrigados a sair do país, a secretária acredita que não será de grande relevância uma vez que a cidade conta com muitos médicos e que os brasileiros devem ter prioridade nas vagas. “Nós temos médicos brasileiros que querem trabalhar aqui, mas não conseguem. Há um tempo não tínhamos profissionais suficientes, o programa foi bacana para colocar profissionais em locais longínquos. Vejo que hoje a realidade é outra”, diz.

A secretária de saúde comentou ainda que os médicos deveriam receber bolsas integrais como salário. No que se refere a possível dificuldade de encontrar profissionais que queiram trabalhar em locais de alta periculosidade, Dulce Pimenta não acredita que vá acontecer. “Aqui, os locais de maior periculosidade quem assume são médicos brasileiros. Não acho que faça diferença. Acho até desumano essa questão, por que a vida do médico estrangeiro vale menos? É normal colocá-los em espaços mais arriscados porque são de fora?”, questiona.

Realidade em municípios mais distantes

Em cidades mais distantes dos grandes centros, os responsáveis pela pasta da saúde não têm a mesma opinião da secretária de Montes Claros. Porteirinha, localizada ainda mais ao Norte de Minas, é uma das cidades que proporcionalmente tiveram mais profissionais do programa Mais Médicos da região. Com pouco mais de 38 mil habitantes, o município chegou a contar com seis contratados.

Segundo o secretário de saúde, Jaime Paulo de Almeida, a adesão ocorreu em 2013. Almeida está à frente da secretaria há seis anos e afirma que o único problema que já teve com os médicos do programa ocorreu justamente com um brasileiro que havia se formado na Bolívia. “Tivemos médicos brasileiros no mesmo programa e não tivemos felicidade. Era um médico brasileiro formado na Bolívia e não tinha o mesmo comprometimento dos cubanos, apesar das mesmas características. Em minha opinião, o que vai faltar é comprometimento”, observa.

Porteirinha tem seis médicos no programa — Foto: Prefeitura de Porteirinha/Divulgação

Porteirinha tem seis médicos no programa — Foto: Prefeitura de Porteirinha/Divulgação

Jaime Paulo destaca que, diante das mudanças salariais, ele não acredita que vá existir problemas no preenchimento de vagas, uma vez que muitos profissionais vão se interessar pelos valores pagos. A preocupação do secretário está no que se refere a fixar os profissionais no interior, que muitas vezes não têm pretensões de permanecer e se dedicar longe dos grandes centros.

“O prejuízo vai ser da população até que isso se organize. Vai ser difícil fixar o médico brasileiro. Até que Porteirinha é perto, oferece o necessário para que o médico trabalhe de maneira adequada, mas e em cidades mais distantes ainda? Um profissional que deseja crescer profissionalmente, se especializar, vai fixar? Se a questão é o valor da bolsa ficar integralmente com o médico, que se resolva. É adequado que o dinheiro fique com o profissional, mas vai ser difícil em locais mais longínquos sim, não há como negar”, diz.

Sobre a qualidade técnica dos profissionais de Cuba, Jaime Paulo garante que nunca houve problema e que os médicos se demonstram dispostos e muito eficientes. “Todos os médicos que vieram de Cuba para Porteirinha foram muito bons. No início, houve dificuldade com o idioma, mas se desenvolveram muito bem. Tive excelentes profissionais atuando aqui, inclusive tendo perspicácias até maiores às vezes do que brasileiros. Aconteceu duas vezes de profissionais de outras regiões remanejados que também não tiveram tanto sucesso, mas só um brasileiro que deu problema”, reitera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *